A pessoa que criou aquele sistema saiu da empresa. E agora?

A pessoa que criou aquele sistema saiu da empresa. E agora?

Plataformas low-code e no-code, somadas às ferramentas de Inteligência Artificial, já permitem que qualquer pessoa da empresa construa uma automação ou aplicação funcional sozinha, sem esperar na fila da área de tecnologia. O financeiro automatiza um processo. O time de recursos humanos monta um fluxo para organizar solicitações. Tudo isso funciona, e funciona bem rápido.

Criar é uma coisa. Criar corretamente é outra.

A grande vantagem dessas plataformas é diminuir a barreira de entrada. Uma pessoa sem conhecimento de programação consegue criar uma automação, e uma equipe de marketing consegue montar uma ferramenta para organizar leads. Isso pode gerar ganho real de produtividade! Fato!

O problema é o momento em que essa facilidade é confundida com garantia de qualidade. Uma aplicação pode funcionar exatamente como foi pensada e, ainda assim, carregar falhas de segurança, de controle de acesso, de integração ou de governança que ninguém percebeu na hora de criar. E só depois a empresa percebe os furos cometidos.

As perguntas escondidas

Imagine uma aplicação criada para facilitar o trabalho de uma equipe. Ela começa pequena, funciona bem e, aos poucos, passa a ser usada pela empresa inteira. Nesse caminho, ninguém parou para responder:

Quem controla os acessos dessa aplicação?  Onde os dados dela estão armazenados?  Essa solução segue alguma política de segurança da empresa? E a pergunta mais desconfortável de todas: o que acontece se a pessoa que criou aquilo sair da empresa?

Isso tem nome, e a própria Microsoft reconhece o risco

Quando diferentes áreas desenvolvem suas próprias soluções sem qualquer comunicação com a área de tecnologia, o resultado é o que o mercado chama de Shadow IT: tecnologia usada dentro da empresa sem o conhecimento ou a aprovação de quem deveria ter visibilidade sobre ela.

A Microsoft já falou sobre isso, em material próprio, que o desenvolvimento feito por pessoas fora da área de tecnologia pode evoluir para esse cenário. E como resposta, recomendou política de governança, treinamento, controle de acesso e supervisão da área de tecnologia.  Vale reforçar um ponto que passa despercebido: menos código não significa menos responsabilidade.

A Open Worldwide Application Security Project (OWASP), referência mundial em segurança de aplicações, mantém um projeto específico sobre os principais riscos de quando pessoas sem formação técnica criam as próprias aplicações, entre eles configuração inadequada, exposição de dados e falha de controle de acesso.

O cenário atual no Brasil

Esse cenário já é realidade nas empresas brasileiras. Um levantamento nacional recente mostra que 74% dos executivos já encontraram aplicações ou automações de Inteligência Artificial criadas fora da área de tecnologia da própria empresa. Entre os líderes entrevistados, 81% consideram esse uso sem supervisão um risco real para o negócio.  Ou seja, isso está mais perto do que imaginamos. O que falta, na maioria das empresas, é a governança que deveria ter acompanhado essa mudança desde o início.

Como equilibrar liberdade e controle

Diante desse cenário, muitas empresas ficam presas a um falso dilema: liberar a criação e aceitar o risco, ou proibir e perder agilidade. Esse dilema existe porque as ferramentas usadas para criar quase nunca trazem controle junto. A governança vira uma tarefa à parte, feita manualmente por alguém quando sobra tempo, e por isso chega sempre atrasada.

O caminho que resolve é criar dentro de um ambiente onde a governança já faz parte da construção. Em vez de cada pessoa montar sua solução em uma ferramenta solta, todas nascem no mesmo lugar, com segurança, controle de acesso e registro de alterações já incorporados. Quem entende do negócio constrói rápido, e a área de tecnologia enxerga tudo o que existe sem precisar correr atrás.

A conclusão prática

Low-code, no-code e desenvolvimento tradicional vão continuar coexistindo, cada um com seu papel. O diferencial está em saber quando usar cada abordagem e em que momento é preciso trazer conhecimento técnico especializado para dentro do processo. Dar a todos a chance de criar é uma conquista real. Dar essa chance sem governança é um risco que poucas empresas medem a tempo.

Fontes consultadas:

  • Mazzatech: Low-code e no-code: democratização real da tecnologia ou risco oculto? (mazza.tech)
  • Microsoft: What is low-code governance and why it is necessary (microsoft.com)
  • OWASP: Citizen Development Top 10 Security Risks (owasp.org)
  • Decision Report: IA acelera modernização da infraestrutura no Brasil, mas desafia governança de dados (decisionreport.com.br)

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